A diva da Vanguarda Paulista Vânia Bastos tem nascentes em Minas Gerais

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“O cantar é um transbordamento; traz a alma, chama as nossas profundezas, tanto de quem canta, como de quem ouve” (Vânia Bastos)

Vânia Bastos tem 35 anos de carreira e figura entre as grandes intérpretes do Brasil. Considerada a cantora mais afinada da MPB pelo mestre Cauby Peixoto. Dona uma voz singular, técnica precisa e uma discografia impecável.Participante da Vanguarda Paulista, movimento que revolucionou a música brasileira e a contracultura na década de 1980. A cantora fala com exclusividade para o Blog Love MPB sobre sua trajetória e suas raízes no norte de Minas Gerais.
Por Douglas Love

LOVE: A Vanguarda Paulista foi um movimento de grande vitalidade artística em uma época que a mesmice tomava conta da música. Você vê hoje algum artista que tem uma influência declarada ou não daquele período?

Vânia Bastos: Tem várias coisas pipocando por aí,como: Anelis Assumpção, Tulipa Ruiz, o grupo DonaZica, Vange Milliet, Iria Braga (de Curitiba) .A banda Blitz dos anos 80 também teve forte influência, mas só que adotou um som “fácil” .

LOVE: Clara Crocodilo e Tubarões Voadores são trabalhos inovadores e hoje clássicos da contracultura e da nascente cena Indie. As propostas ousadas do Arrigo chegaram a te intimidar em algum momento ou você embarcou sem medo?

Vânia Bastos: Embarquei sem medo algum, até mesmo porque tive suporte pra entender a música do Arrigo. Eu fazia Ciências Sociais na USP, mas vivia na escola de música (ECA) e lá fazia muitos cursos. Assim tomei contato com a música erudita contemporânea, com o dodecafonismo e me aprofundei nesse mundo. Quando conheci o trabalho do Arrigo, achei o máximo, pois eu gostava de cantar coisas desafiadoras e a música dele me fez muito bem! Ainda tinha toda uma teatralização que sempre amei! Foi um desafio e tanto, mas ao mesmo tempo, me via em casa.


LOVE: Quais foram às escolas que ajudaram a construir a cantora Vânia Bastos?

Vânia Bastos: Meu gosto é bem eclético e acho interessante, pois me permiti gostar de vários tipos de músicas que mexiam e mexem comigo: Rita Pavone, Wanderléa, Elis Regina, Gal Costa, Maria Creuza, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Nat King Cole, Evinha, Tetê Espíndola, Stacey Kent, Esperanza Spalding e Tulipa Ruiz, são vozes atuais que gosto muito também. Cathy Berberian é uma cantora erudita contemporânea que gravou folk songs e eu fiquei fascinada. Enfim fortes e delicadas vozes.

LOVE: O repertório de sua discografia é muito bem construído desde o primeiro álbum. Como é seu processo de escolha?

Vânia Bastos: O processo de escolha é bem simples, vou seguindo a intuição. Também ouço opiniões. Vejo se a música vai ficar legal na minha voz, coisas assim.
LOVE: Você dedicou trabalhos inteiros a Caetano Veloso, Tom Jobim, Clube da Esquina e Edu Lobo. O Songbook é uma predileção de Vânia Bastos? Temos mais algum grande compositor nos planos?

Vânia Bastos: As coisas foram acontecendo assim. Não programei nada. O Caetano e o Jobim foram idéias do Eduardo Gudin. Já O Clube da Esquina foi um convite do Marco Mazzola e o Edu Lobo foi um convite do Thiago Marques Luiz. Lógico que amei esses convites, pois têm tudo a ver com o meu gosto e minha história de paixões musicais. Não sei ainda o que virá por aí, mas como cantora brasileira, acho boa a liberdade de gravar songbooks ou não. Também fiz vários trabalhos com músicas inéditas e sei da importância que isso tem na vida de cantora. Mas qualquer música inédita precisa de mais “empenho” de mídias em geral, pra conseguir chegar aos ouvidos das pessoas. Isso também é um fato.

LOVE: Você já dividiu palco e estúdio com grandes nomes da música popular brasileira. Cite alguns:

Vânia Bastos: Caetano Veloso, Ivan Lins, Milton Nascimento, Edu Lobo, Arrigo Barnabé, Angela Maria, Cauby Peixoto, Lô Borges, Nivaldo Ornellas, Toquinho, Eduardo Gudin, Francis Hime, Leila Pinheiro, Fátima Guedes,Fábio Jr e Rita Lee. São tantos não estou me lembrando!

LOVE: Quais são “as dores e delicias” de se fazer um trabalho sofisticado no Brasil?

Vânia Bastos: Puxa! O fôlego tem que ser grande, a paixão maior ainda. Saber que existem momentos de agenda cheia e outros momentos que não, não se ouvir tocando nas rádios como poderia muito bem acontecer, mas o outro lado é que o público é fiel, quase que eternamente, existe uma liberdade maior em relação aos sons. Mas a verdade é que é importante o artista ter um suporte pra dar segurança na continuidade de sua arte. Suporte de produção de discos e de shows.

LOVE: Você tem familiares em Januária e conhece a região. Quais suas lembranças do Rio São Francisco e o que tem de mineiro na sua música?

Vânia Bastos Nossa! Amo Minas e o trajeto todo que fazia quase todos os anos da minha adolescência, entre Ourinhos (SP) e Januária (MG). Fiz muito esse trajeto ouvindo as músicas do Clube da Esquina, pois era comum ouvir nas rádios de todo o país aquela maravilha toda. O encantamento das montanhas do sul de Minas triplicava ao som de Milton Nascimento....e a visão daquele rio e dos dias ensolarados também . Nas férias de julho, que é quando dava praia na beira do rio São Francisco.Lembro-me muito dos forrós, do jeito do povo contar casos, do sotaque de Januária, de lavar os cabelos no rio, eles ficavam lindos, brilhantes, a gente levava saquinhos de shampoo e lavava na hora de ir embora. Que água boa!


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