Zeca Baleiro interpreta Zé Ramalho em Belo Horizonte

  O universo místico e poético do menestrel paraibano Zé Ramalho é o tema do novo trabalho de Zeca Baleiro. E o Grande teatro do SESC Paladium recebeu mais uma vez o espetáculo Zeca Baleiro canta Zé Ramalho com participação especial da cantora Elba Ramalho, na noite dessa quinta feira, 20 de agosto.
  Em uma empreitada nada fácil ser interprete de um autor cujo sua própria interpretação é única e insuperável, Zeca Baleiro conseguiu fazer um espetáculo impactante e que faz jus à preciosidade da obra de Zé ramalho dentro da Música Popular Brasileira.
  As pérolas ramalhianas como: Ave de prata, Terceira Lâmina, Dança das borboletas, Vila do sossego e Chão de giz, com instrumental inteligente e preciso, aliados à bela iluminação e projeções cinematográficas temáticas, presenteiam o expectador e mantém o espetáculo interessante, até mesmo na execução de canções pouco conhecidas do autor como: Desejo Mouro, Um pequeno xote e uma parceria de Zeca com o próprio Zé Ramalho, intitulado Rei do rock, gravada por Zé no álbum Parceria dos viajantes em 2007.
  Zeca canta com Elba Ramalho, Banquete dos signos, canção feita por Zé para o segundo álbum da cantora, Capim do Vale em 1980 e deixa a cena para os números solos de sua convidada, que de maneira intimista, acompanhada pelo violão de Marcos Arcanjo, interpreta de Geraldo Azevedo: Dia branco, Canção da despedida e Chorando e cantando.Já com a banda de Baleiro,faz o reggae swingado A árvore e a obrigatória De volta pro aconchego.
  Kriptónia, Admirável gado novo e Avohai enceram a apresentação com a mesma força cênica da abertura. No bis atendendo o desejo de seu público Zeca canta Telegrama e chama Elba ao palco para refazer Chão de giz, com a cantora de violão em punho.

  Zeca Baleiro é um compositor único e sensível e faz de seu tributo a Zé Ramalho um trampolim definitivo para o seu lado intérprete e construtor de novas visões E se tratando da obra atemporal do menestrel voz de trovão,esse feito é duplamente aplausível.
O DVD Zeca Baleiro canta Zé Ramalho | Chão de Giz" lançado via Som Livre é super recomendado,com destaque para a clip Garoto de Aluguel.


Elba Ramalho brilha no Festival Clara Nunes


  Elba Ramalho tem muitas semelhanças com Clara Nunes, ambas são leoninas, nascidas no interior e se tornaram conhecidas por cantar um Brasil de cores quentes e vibrantes, o mar e a seca. Elba canta pela segunda vez no Festival em homenagem ao nascimento da Mineira Guerreira, falecida há 32 anos, realizado na cidade de Caetanópolis em Minas Gerais.
  Sob grande entusiasmo do público e uma chuva de fogos de artifício, Ramalho entrou no palco entoando o medley junino, evocando o repertório de Luiz Gonzaga. Em seguida, vieram vários hits destacando a munição forrozeira de seu repertório: Bate Coração, Qui nem Jiló, Esperando na janela, Baião e o hino nordestino Asa Branca.
– Clara e Dona Ivone Lara me ensinaram a sambar em Luanda, em uma excursão que fizemos juntas ao lado de Chico Buarque e vários artistas no inicio dos anos 1980, relembra Elba, antes de prestar tributo à homenageada da festa cantando Morena de Angola.

  Atendendo aos pedidos dos fãs, a cantora cantou á capela O ciúme, de Caetano Veloso, e Dia Branco, de Geraldo Azevedo. Em De volta pro Aconchego, acompanhada por um gigantesco coral, a artista de joelhos se entrega ao público. Instante sublime de consagração popular.
  A interpretação esfuziante de Feira de Mangaio,de Sivuca, com triângulo na mão ,rememorou e confirmou as afinidades cênicas com Clara Nunes e a ligação com seu repertório. -Clarinha, exclamou Elba no apogeu da canção e emocionou os presentes.
  O delicioso reggae A árvore e a balada pop sertaneja A flor,sucesso na voz da dupla Jorge e Matheus mostram uma artista acostumada a lidar com multidões e jogar nas onze para dominar e animar seus fãs.As incendiárias Banho de Cheiro e Frevo Mulher encerraram a apresentação de maneira alegre e festiva, características inatas de Elba Ramalho.
  A presença de Elba Ramalho no 10 º Festival Cultural Clara Nunes entrelaçou mais uma vez a trajetória de duas estrelas da música brasileira. Estrelas que sempre tiveram o cuidado de cantar o que há de mais puro e autêntico na nossa cultura: o samba, o frevo, o forró, e todas as suas vertentes, sempre com extremo bom gosto.

A diva da Vanguarda Paulista Vânia Bastos tem nascentes em Minas Gerais




“O cantar é um transbordamento; traz a alma, chama as nossas profundezas, tanto de quem canta, como de quem ouve” (Vânia Bastos)

Vânia Bastos tem 35 anos de carreira e figura entre as grandes intérpretes do Brasil. Considerada a cantora mais afinada da MPB pelo mestre Cauby Peixoto. Dona uma voz singular, técnica precisa e uma discografia impecável.Participante da Vanguarda Paulista, movimento que revolucionou a música brasileira e a contracultura na década de 1980. A cantora fala com exclusividade para o Blog Love MPB sobre sua trajetória e suas raízes no norte de Minas Gerais.
Por Douglas Love

LOVE: A Vanguarda Paulista foi um movimento de grande vitalidade artística em uma época que a mesmice tomava conta da música. Você vê hoje algum artista que tem uma influência declarada ou não daquele período?

Vânia Bastos: Tem várias coisas pipocando por aí,como: Anelis Assumpção, Tulipa Ruiz, o grupo DonaZica, Vange Milliet, Iria Braga (de Curitiba) .A banda Blitz dos anos 80 também teve forte influência, mas só que adotou um som “fácil” .

LOVE: Clara Crocodilo e Tubarões Voadores são trabalhos inovadores e hoje clássicos da contracultura e da nascente cena Indie. As propostas ousadas do Arrigo chegaram a te intimidar em algum momento ou você embarcou sem medo?

Vânia Bastos: Embarquei sem medo algum, até mesmo porque tive suporte pra entender a música do Arrigo. Eu fazia Ciências Sociais na USP, mas vivia na escola de música (ECA) e lá fazia muitos cursos. Assim tomei contato com a música erudita contemporânea, com o dodecafonismo e me aprofundei nesse mundo. Quando conheci o trabalho do Arrigo, achei o máximo, pois eu gostava de cantar coisas desafiadoras e a música dele me fez muito bem! Ainda tinha toda uma teatralização que sempre amei! Foi um desafio e tanto, mas ao mesmo tempo, me via em casa.


LOVE: Quais foram às escolas que ajudaram a construir a cantora Vânia Bastos?

Vânia Bastos: Meu gosto é bem eclético e acho interessante, pois me permiti gostar de vários tipos de músicas que mexiam e mexem comigo: Rita Pavone, Wanderléa, Elis Regina, Gal Costa, Maria Creuza, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Nat King Cole, Evinha, Tetê Espíndola, Stacey Kent, Esperanza Spalding e Tulipa Ruiz, são vozes atuais que gosto muito também. Cathy Berberian é uma cantora erudita contemporânea que gravou folk songs e eu fiquei fascinada. Enfim fortes e delicadas vozes.

LOVE: O repertório de sua discografia é muito bem construído desde o primeiro álbum. Como é seu processo de escolha?

Vânia Bastos: O processo de escolha é bem simples, vou seguindo a intuição. Também ouço opiniões. Vejo se a música vai ficar legal na minha voz, coisas assim.
LOVE: Você dedicou trabalhos inteiros a Caetano Veloso, Tom Jobim, Clube da Esquina e Edu Lobo. O Songbook é uma predileção de Vânia Bastos? Temos mais algum grande compositor nos planos?

Vânia Bastos: As coisas foram acontecendo assim. Não programei nada. O Caetano e o Jobim foram idéias do Eduardo Gudin. Já O Clube da Esquina foi um convite do Marco Mazzola e o Edu Lobo foi um convite do Thiago Marques Luiz. Lógico que amei esses convites, pois têm tudo a ver com o meu gosto e minha história de paixões musicais. Não sei ainda o que virá por aí, mas como cantora brasileira, acho boa a liberdade de gravar songbooks ou não. Também fiz vários trabalhos com músicas inéditas e sei da importância que isso tem na vida de cantora. Mas qualquer música inédita precisa de mais “empenho” de mídias em geral, pra conseguir chegar aos ouvidos das pessoas. Isso também é um fato.

LOVE: Você já dividiu palco e estúdio com grandes nomes da música popular brasileira. Cite alguns:

Vânia Bastos: Caetano Veloso, Ivan Lins, Milton Nascimento, Edu Lobo, Arrigo Barnabé, Angela Maria, Cauby Peixoto, Lô Borges, Nivaldo Ornellas, Toquinho, Eduardo Gudin, Francis Hime, Leila Pinheiro, Fátima Guedes,Fábio Jr e Rita Lee. São tantos não estou me lembrando!

LOVE: Quais são “as dores e delicias” de se fazer um trabalho sofisticado no Brasil?

Vânia Bastos: Puxa! O fôlego tem que ser grande, a paixão maior ainda. Saber que existem momentos de agenda cheia e outros momentos que não, não se ouvir tocando nas rádios como poderia muito bem acontecer, mas o outro lado é que o público é fiel, quase que eternamente, existe uma liberdade maior em relação aos sons. Mas a verdade é que é importante o artista ter um suporte pra dar segurança na continuidade de sua arte. Suporte de produção de discos e de shows.

LOVE: Você tem familiares em Januária e conhece a região. Quais suas lembranças do Rio São Francisco e o que tem de mineiro na sua música?

Vânia Bastos Nossa! Amo Minas e o trajeto todo que fazia quase todos os anos da minha adolescência, entre Ourinhos (SP) e Januária (MG). Fiz muito esse trajeto ouvindo as músicas do Clube da Esquina, pois era comum ouvir nas rádios de todo o país aquela maravilha toda. O encantamento das montanhas do sul de Minas triplicava ao som de Milton Nascimento....e a visão daquele rio e dos dias ensolarados também . Nas férias de julho, que é quando dava praia na beira do rio São Francisco.Lembro-me muito dos forrós, do jeito do povo contar casos, do sotaque de Januária, de lavar os cabelos no rio, eles ficavam lindos, brilhantes, a gente levava saquinhos de shampoo e lavava na hora de ir embora. Que água boa!


Geraldo Azevedo: o menestrel de Petrolina


Elba Ramalho: uma cantriz genuinamente popular brasileira